23/3/07
pra mudar um pouco
O ‘dar valor’ e a ‘coisificação’; ‘dos males o menor’
Já me falaram, e ainda hoje me falam muito que devo ‘dar valor’ as coisas que tenho. Estão sempre falando em relação ao carro, celular ou outros bens materiais, que confesso nunca ter tido realmente o mínimo de apego. A frase sempre vem acompanhada de um mini-sermão do tipo: você trabalha tanto para conseguí-las, deve ‘dar valor’ ao esforço que teve para ganhar esse dinheiro que investiu. Depois de tanto ouvir isso comecei a pensar no significado de valor, e nada melhor de que recorrer ao pai-dos-burros para ver o que conseguiria:
HOUAISS
Valor
substantivo masculino
1.1 quantidade monetária equivalente a uma mercadoria, em função de sua capacidade de ser negociada no mercado; preço
11 reconhecimento, de um ponto de vista afetivo, da importância ou da necessidade (de algo ou alguém)
Dentre as diversas acepções lexicográficas para a palavra, escolhi essas duas, pois creio serem as mais adequadas para o contexto.
Poderiam os meus conselheiros estarem querendo que eu valorizasse meu patrimônio, pensando em uma possível futura negociação de meus bens. Vejo assim, caso coloque o significado 1.1 no contexto. Porém, creio que na verdade o sentido ao qual todos querem dar nessa frase que insistem em me dizer é o número 11. Nesse momento fico confuso… Como posso do ponto de vista afetivo demonstrar a importância de meu carro? Não conselheiros, por favor, vocês não estão pedindo que eu beije a flandagem dele diariamente? Estão? Não querido HOUAISS, você mesmo define afeto como um ’sentimento terno de adesão ger. por uma pessoa ou animal’. Como você quer que eu trate algo como alguém? Já li algo sobre o processo de ‘coisificação’ dos seres humanos, mas nesse caso a proposta seria a humanização das coisas?
Falando sobre o processo de ‘coisificação’ dos seres humanos, e complicando cada vez mais o texto que já está bastante confuso, creio que descobri o motivo dos parênteses (de algo ou alguém) no significado 11. Como as pessoas estão virando coisas, ou algo, e deixando de ser alguém foi necessário especificar entre parênteses para sabermos que podemos reconhecer afetivamente os humanos ‘coisificados’; menos mal, assim talvez não tenha nada a ver com palavras de carinho e beijinhos nas coisas humanizadas.
Para finalizar, gostaria de dizer que dou valor sim ao que tenho. Dou valor a minha família, dou valor aos meus amigos, dou valor ao padeiro, dou valor ao gari, dou valor a gente! E para vocês que acham que o valor deve ser dado às coisas, e nunca vão conseguir dar valor a alguém, como última alternativa podem ‘coisificar’ os humanos que conhecem e dar valor a eles como sendo algo, como diria vovô: ‘dos males, o menor’.
Wanderson Uchoa
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