Segurança Pública e parte da Mídia Televisiva Cearense
Wanderson Ismael Uchôa de Lima
Sou apenas um estudante e trabalhador de 24 anos de idade, nascido na periferia que margeia a cidade de Fortaleza, região da Grande Jurema, onde moro até hoje. Convivendo com os problemas de infra-estrutura, dificuldades de acesso a educação e saúde, segurança etc no meu dia-a-dia.
Vou mesclar no texto a seguir algumas idéias sobre segurança pública, política e parte da mídia televisiva cearense. Não sou especialista, ou algo do tipo, em nenhuma dessas áreas, mas com um pouco de senso crítico posso me indignar com o que está errado nesse "trio". Ou seja, talvez eu não tenha a solução, porém como está sendo apresentada, sei que nunca chegaremos a ela.
Havia passado um bom tempo sem assistir os programas policiais locais, porém com uma mudança no horário de trabalho estou tendo a oportunidade de estar em casa no horário do almoço, assim tenho novamente acompanhando esses programas.
Primeiro gostaria de destacar como os apresentadores são ‘a alma’ desses programas. No período de eleições tivemos dois deles que mudaram de condutor, Cidade 190 e Comando 22, pois os senhores Edson Silva e Ferreira Aragão se candidataram (e foram eleitos) a deputados estaduais. Dando assim uma clara demonstração que o programa não é o mesmo sem eles. Apenas o Barra Pesada continuou com equilibrada e transparente condução do jornalista Nonato Albuquerque, que sem sensacionalismo deveria ser um espelho para os demais programas, caso esses não tivessem apenas interessados em audiência, mas também tivessem alguma preocupação com a melhora social de nosso Estado. Portanto, minhas críticas e indignação serão dirigidas à pessoa; para aquele que conduz o programa, pois nesse caso ele é o principal (ir)responsável pelos erros grosseiros exibidos no programa.
O apresentador Ferreira Aragão é advogado e formado em ciências contábeis. Radialista entrou para política, sendo eleito vereador da cidade de Fortaleza e agora Deputado Estadual do Estado do Ceará. Deixando de lado a discussão de uso da mídia para interesses eleitoreiros, queria apenas discutir a forma de condução do bacharel e representante do povo, e seus comentários no Comando 22.
A marca do apresentador são jargões do futebol que incitam a violência, talvez com o objetivo de ser engraçado, pois não vejo outra explicação para o episódio burlesco de se ouvir o apresentador falar: "do pescoço para baixo é canela"! Porém, esses jargões não têm nada de engraçado, são ridículos para os objetivos que se propõem, mas provavelmente trazem alguma audiência.
A audiência é outra questão que pode ser avaliada. O apresentador está sempre interessado em informar que na cidade tal, muitas vezes no interior ou até mesmo fora do Ceará, a audiência do programa é de mais de oitenta ou noventa por cento. Sem querer questionar os números, que são inteiramente questionáveis, é algo totalmente fútil para nós telespectadores, mas talvez isso traga mais anunciantes, aumentando assim o seu lucro com propaganda.
Agora o que realmente gerou a minha indignação e que me fez relatá-la nesse texto, foi a facilidade de como a solução para os problemas de segurança em nosso Estado são proferidas pelo apresentador. Usando exemplos de cidades paulistas, e dizendo de forma irresponsável que os homicídios diminuíram de forma brutal nessas cidades, diz que os problemas de Fortaleza também são fáceis de resolver. Esquece o apresentador que temos uma região metropolitana de três milhões de habitantes e "soluções" do tipo ‘toque de recolher as 22h’, podem até funcionar parcialmente em uma cidade paulista de 200 mil habitantes, porém são inexeqüíveis em nossa região metropolitana.
O apresentador Ferreira Aragão já foi vereador de Fortaleza e nada de concreto fez para o combate à violência em nossa cidade. Talvez alguém me questione que a segurança pública é papel dos Governos Federais e Estaduais. Porém, quem faz esse questionamento se engana. A segurança pública deve ser vista de forma mais ampla. O município deve contribuir para a produção da segurança, para isso suas políticas de assistência social devem ser compostas, focalizadas e gerenciadas para essa produção. Voltando-se para educação integral, geração de renda e emprego, tratamento de dependentes químicos e alcoólatras são formas de se combater a entrada de adolescentes e jovens à criminalidade. Porém, quando no legislativo municipal, o apresentador nunca deve ter tido interesse em estudar esses meios e tentar fazê-los possíveis em nossa cidade, afinal era bem mais fácil fazer projetos para a criação da semana da capoeira, da semana do kung fu e alterar nomes de ruas.
Em 2007 o bacharel estará no legislativo estadual, provavelmente nada mudará, tendo em vista o total desconhecimento que o apresentador e deputado demonstra quando o assunto é segurança pública. Em relação ao programa policial na televisão, não deve também mudar em nada, pois jargões ridículos, sensacionalismo e propostas esdrúxulas, dão audiência, lucro e votos!