em uma noite de quarta-feira, no meio do mês de março deste ano de 2006, estava eu tentando dar um toque de boemia em meu final de noite, então fui parar na rua Norvinda Pires. chegando em um dos bares daquela rua, vi algumas pessoas que jogavam sinuca e várias outras que conversavam em mesas do lado de fora e no meio da rua. não escuto nenhuma voz e nenhum violão. só escuto as vozes das pessoas, porém, vi uma guitarra descansando em cima de uma cadeira. a única mesa vaga ficava vizinho a escada de três degraus que levava até a guitarra, sentei-me e fui informado que estava apenas no intervalo, portanto pedi uma cerveja e esperei.
no segundo copo a guitarra começa a tocar, e uma intérprete de voz forte canta clássicos da MPB, dentre eles, Solidão, de Dolores Duran. eu estava ali, pouco mais de um metro da cantora que passava emoção em seu canto, porém eu permanecia impávido com a cabeça em outros lugares, tendo apenas aquela música, que eu tanto precisava ouvir, ao longe, como pano de fundo de meus pensamentos distantes.
em um determinado momento, acho que já na segunda cerveja, a cantora pára e fala: __ fausto, vem aqui, canta aquela comigo!. olhei para o mesmo lado que ela olhava, a procura dele, só poderia ser ele, fausto nilo. porém não o encontrava, via outros senhores, mas não via o senhor das letras. e quando pensei, não deve ser esse fausto que ela chama, vejo ele passar do meu lado, lentamente, carregando os seus quase 62 anos de vida bem vividos, e com o mesmo semblante de timidez de todo o sempre. era ele, por isso não o encontrei em minha busca com os olhos, a sua famosa timidez tinha o poder de fazê-lo desaparecer.
mas agora ele estava ali, na minha frente, sentado em uma cadeira a pouco mais de um metro. fiquei realmente surpreso, rapidamente meus pensamentos voltaram-se totalmente para aquele momento. ele olhou para mim rapidamente, deve ter se assustado com a forma que eu o olhava, eu estava com os olhos sem piscar, com medo que ele novamente desaparecesse, portanto logo desviou o olhar para o céu e começou a cantar Lua do Leblon. ele parecia querer realmente ouvir as estrelas, que naquele noite nublada estavam bem mais difíceis de se ver. em toda a música, ora fausto olhava o chão, ora o céu. no verso ‘no olhos das meninas do sertão’, olhou para uma mesa que encontrava-se já embaixo da calçada, onde haviam garotas sentadas e sorriu, único momento distoante em toda a interpretação. ao terminar, foi apaludido, desceu e sentou-se em sua mesa sem soltar uma palavra a mais, e da mesma forma simples que chegou. afinal, ele já disse tudo. dois ou três minutos que para mim foram uma eternidade, momento único e surpreendente que transformou minha noite nublada, em um céu azul, o planeta em um, minha busca de boemia em uma noite feliz.
= = = até alguns anos atrás, Fausto Nilo para mim era apenas o ‘parceiro do Fagner’. aos poucos fui conhecendo melhor esse senhor, descobri que no ano em que eu nascia, 1982, ele ganhara o troféu Playboy e ainda ganhou dois Prêmios Sharp, na categoria Melhor Música Popular (1987 e 1995). descobri sobre a arquitetura, praça do ferreira, dragão do mar… mas o que me encantou foram suas letras, que como disseram Luís Sérgio Santos e Orlando Mota na revista Fale!: "A letra de Fausto é veículo intuitivo, às vezes paralelo às regras da gramática e da sintaxe, externo ao conhecimento metódico, mas capaz de penetrar, vagabundamente, no universo próprio dessa língua desconhecida. Puro transe no processo criativo. Sua arte não explica, mas tem o poder de nos fazer sentir."
em abril 2004 leio no jornal O Povo a coluna de Airton Monte: Para Fausto Nilo, em homenagem ao então sexagenário. guardo até hoje as palavras de Airton na memória… esse noite teve um ‘gosto estranho, como a primeira coca-cola’, porém, com run, gelo e limão = = =
Wanderson Uchoa